Logo
0
R$0,00
0 items

Nenhum produto no carrinho.

BLOG

#blog

Educação midiática traz textos que alimentam o debate público

Para Maria José da Nóbrega, especialista em Educação, ajudar a criança a elaborar uma notícia pode chamar sua atenção para um problema que ela está vivendo na escola ou no entorno
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin

Marcela Ibelli

Quando estudava, a escritora e especialista em Educação Maria José da Nóbrega, a Mazé, conta que não tinha tanto acesso à variedade de textos como a geração atual. Por isso, considera essencial que hoje a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) recomende uma educação midiática efetiva.

Para ela – que é autora de diversos livros infantis em parceria com Rosane Pamplona pela Editora Moderna, como Salada, Saladinha e Diga um Verso Bem Bonito –, mais do que oferecer materiais jornalísticos, o professor deve expandir o debate e as ações de cidadania dos alunos. “É essencial mobilizar as crianças para uma participação social e o jornalismo midiático está inserido na vida pública”, analisa.

Leia entrevista completa com Mazé, que também fala sobre letramento e inserção digital na rotina escolar.

A nova geração de crianças tem mais dificuldade de escrever do que a sua, por exemplo?
Não acredito nisso. Quando eu estudava, era mais difícil o acesso à educação para boa parte da população. A escola pública era excludente, fazia uma série de exames seletivos. Quem não entrava e tinha condições financeiras ia para uma particular. Quem não tinha ficava fora da escola. Estudar era para a elite. Há uma correlação entre quem consegue acessar a escola e as possibilidades socioeconômicas da família. A linguagem escrita é veiculada por produtos, como livros, revistas, jornais, então as crianças que entravam na escola já tinham uma vivência com a linguagem escrita no ambiente familiar. Isso dava para ela uma vantagem. Quando a escola se democratizou, na pós-ditadura (a partir de 1985), quando houve a possibilidade de as crianças estudarem no Ensino Fundamental, pelo menos elas passaram a ter mais acesso à cultura letrada. Há outro ponto: na minha época, as exigências para a escrita, principalmente para os anos iniciais, eram muito menores do que acontece hoje. Por isso, não concordo que a geração atual tenha mais dificuldade de escrever. O acesso que as crianças de hoje têm a diversos gêneros faz com que convivam com uma gama enorme de textos, privilégio esse que eu não tive.

Então, a educação midiática é algo importante para a formação dos alunos?
Sim, faz parte dos documentos que traçam tanto os parâmetros curriculares nacionais quanto a própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em circulação no momento. A BNCC propõe quatro grandes agrupamentos: os textos do campo na vida cotidiana, com textos da tradição popular, ligados às brincadeiras, à cultura da infância, que hoje migraram para as escolas porque elas ficam mais lá. As cartas, bilhetes e mensagens no celular também são gêneros que precisam ser trabalhados, assim como receitas, regras de brincadeiras, tudo o que faz parte da rotina delas. Depois vem o artístico-literário, em que se tem tanto os textos em verso, como a poesia, como os em prosa, como contos e fábulas. O terceiro é o campo da esfera acadêmica, que diz respeito ao estudo e à pesquisa. É fundamental que se aprenda a ler verbetes de enciclopédias, tanto impressas quanto digitais, artigos de divulgação científica, que ensinam conteúdos escolares. O quarto é o da esfera pública, em que entram os materiais jornalísticos com as notícias, entrevistas, crônicas. A educação midiática traz para as salas de aula textos que circulam para alimentar o debate público e o exercício da cidadania. O ato de ler notícias para as crianças não é muito comum, mesmo em famílias que têm acesso às práticas culturais. É quando entra o papel das escolas de conscientizar as famílias e introduzir as crianças nessa discussão. Muitas vezes encontramos certa resistência, como se os pais quisessem apartar os filhos dos temas políticos, mas as crianças são muito antenadas, elas captam tudo. Então, criar espaço em que se possa falar sobre isso é extremamente importante. Claro, que aproximando a linguagem delas, como faz a Qualé.

Quais os principais desafios das escolas, tanto na alfabetização comum quanto na midiática?

Quando se pensa no ensino de qualquer conteúdo escolar, e a alfabetização é um deles, a gente precisa ter o olhar voltado basicamente para três aspectos: o primeiro é que o professor precisa conhecer muito o objeto que ele está ensinando. Para alfabetizar, por exemplo, deve-se conhecer a relação que as letras estabelecem com os sons, como se articulam. Quanto mais sabe, mais consegue ensinar. A segunda coisa é entender o que as crianças pensam sobre esse objeto. Interagindo com a escrita, passa a elaborar hipóteses. No caso dos gêneros jornalísticos, às vezes, as hipóteses são muito ingênuas. Por exemplo: se pedir para os alunos desenharem o que acontece e colocar no Google uma palavra qualquer, muitos acham que tem uma pessoa do outro lado do computador. Eles ainda não conseguem entender a ideia dos algoritmos. Também têm dificuldade de compreender a esfera jornalística. Muitas crianças imaginam que o repórter fica esperando que alguém passe a informação. É muito ingênuo mesmo. É essencial entender não apenas a notícia, mas como ela é feita. Isso ajuda a saber selecionar o que é verdadeiro, o que é falso. O terceiro ponto é a própria mediação. Como o professor, conhecendo o que a criança pensa, consegue aproximar os saberes dela da realidade do objeto em si.

Que dicas você daria para o professor ensinar de forma efetiva o gênero notícia?
É importante que ele se dedique muito à leitura, que é a porta de entrada do conhecimento. A partir daí as crianças passam a identificar os diferentes gêneros jornalísticos. É preciso também fazer uma análise crítica dessas reportagens, eventualmente confrontando a notícia que foi lida em outros veículos ou em outras mídias. Quem se informa transita por diversos meios. Outra coisa é fazer com que as crianças falem, comentem, oralmente, as notícias que leram. Não podemos esquecer que boa parte do que a gente fala no dia a dia tem a ver com o que está acontecendo no mundo. Também é importante estimular a escrita. Muitos veículos permitem que o leitor comente a notícia por escrito por meio de mensagens e cartas. É muito gostoso para a criança ver que seu comentário está lá, isso estimula e já é um exercício de cidadania, o que pode evoluir para um jornal feito pelos próprios alunos dentro da escola, em que as crianças façam as entrevistas, as resenhas. Tudo isso é muito bacana e permite aos alunos entrarem na fluência digital. No lugar de o professor digitar a notícia, tirar foto e inserir o mapa, deixa o aluno fazer. Depois é essencial mobilizar as crianças para uma participação social. O jornalismo midiático está inserido na vida pública. De repente, ajudar a criança a elaborar uma notícia faz com que ela preste atenção em um problema que está vivendo dentro da escola, no entorno. É a hora de começar a desenvolver a participação cidadã, que é tão importante.

Escrever em letra de mão ou de forma ainda é algo necessário?
Existe uma espécie de apego à caligrafia, mas, se formos pensar bem, estamos escrevendo manuscritamente cada vez menos, até para assinar documentos. O cheque, que era uma das últimas coisas que assinávamos, está em extinção. A maioria das pessoas faz pagamentos digitais, sendo que a assinatura é uma senha ou mesmo digital. Só se escreve manuscritamente na escola. Isso nos faz pensar que existem diversos movimentos para escrever, como o de forma cursiva, que precisa de um treino, além do movimento para o teclado do computador e para o uso dos dedos no celular. A mesma preocupação que devemos ter com a motricidade da cursiva deveríamos ter com a motricidade envolvida no uso dos dispositivos digitais. A escola, às vezes, não equilibra essa preocupação. Ainda tem a ingenuidade de achar que a criança é nativa digital, mas é nativa digital só até a página dois. Essa pandemia de Covid-19, quando as crianças e todos nós precisamos ingressar fortemente no ambiente digital, mostrou o quanto elas não conhecem as ferramentas para muitos dos aplicativos disponíveis.

Como equilibrar a tecnologia com o que se deve ensinar na escola?
A entrada dos suportes digitais é relativamente recente. Não há estudos robustos sobre o impacto de migrar totalmente para o digital. Penso que deveríamos, especialmente nos anos iniciais, ter uma presença maior do impresso, tanto em livros como em revistas e jornais, e depois, aos poucos, introduzir o digital. Existem ferramentas que já são totalmente digitais, como o dicionário, por exemplo. Eu uso muito mais o dicionário hoje do que antes, é mais prático, mais fácil procurar uma palavra que está ao alcance das mãos. Precisamos entender o que está acontecendo com as práticas sociais, como estão se instalando. Ainda acho arriscado, com crianças novas, já começar o processo de letramento pelo digital porque é algo dispersivo. O aprendizado precisa de foco e disciplina. Para quem teve seu letramento impresso já há um risco, imagina para quem não tem. Além disso, existem pesquisas que mostram que as pessoas não leem textos muito grandes nas telas, a interação é mais complicada. A escola deve equilibrar e fazer o trabalho com o impresso sem ignorar o digital.

A Qualé é uma publicação da Papo Editora (CNPJ. 35.316.905/0001-50). Todos os direitos reservados.
Rua Saint Hilaire, 194, Jardim Paulista, 11 97616 7308.